31.12.08

Reveillon à pression


Por esta altura, algumas pessoas vasculham avidamente os seus contactos de telefone, msn ou até, nos casos mais desesperados, a lista telefónica. Razão para tal – a obrigatoriedade de ter que festejar à bruta a passagem de ano.

Antes de mais, que não se pense que eu não sou adepto de uma boa festança. Aliás, escrevo estas linhas já com um chapelinho “tipo cone” posto e uma garrafa de vodka na mão, só para alegrar a manhã. No entanto, acho que tudo o que é obrigatório tem muitas vezes pouco de festivo.

Já passei o ano a festejar, em retiro espiritual, na rua, em casa, com amigos chegados, com perfeitos desconhecidos, etc. Mas, em todos os casos, foi sempre porque a coisa se proporcionou e eu estava com esse feeling. Se não tiver, não há problema, a escolha é minha. Por isso, olho com alguma desconfiança, não as pessoas que naturalmente festejam esta data, mas sim aqueles que vejo desesperados por arranjar programa.

A sensação de “Epá, o ano vai acabar e se eu não o festejar assim mesmo que nem um leão, o que é as pessoas vão dizer de mim?” é quase tão ridícula como a expressão na cara de algumas pessoas quando te perguntam “Então, já tens planos para o Reveillon?” e tu respondes “Não, nem me estou a preocupar com isso”. O gozo primordial é celebrar as datas que pessoalmente são relevantes. O resto, é programa de ocasião.

Mas, porque também não quero que aqueles que por aqui passam digam que sou um tipo de má índole e não usem uma das doze passas para desejar que este blog continue a ser fonte de luz (negra) para a sua vida, deixo aqui uma simpática sugestão, para quem gosta de fazer balanços de fim de ano, não me referindo obviamente aos derivados do consumo de bebidas alcoólicas.

Não é novidade, mas passem por aqui e mandem a vocês próprios um email no futuro. Pode ser que nessa altura, algumas das baboseiras que andam a prometer a vocês próprios façam sentido. Caso contrário, terão um motivo para ir festejar para esquecer.

Posto isto, vão lá festejar seus malucos. Da minha parte, obrigadinho e até para o ano.

29.12.08

Follow me



stam·pede (stm-pd)
n.
1. A sudden frenzied rush of panic-stricken animals.
2. A sudden headlong rush or flight of a crowd of people.

v.tr.
1. To cause (a herd of animals) to flee in panic.
2. To cause (a crowd of people) to act on mass impulse.

v.intr.
1. To flee in a headlong rush.
2. To act on mass impulse.


Em português - Saldos.

E assim concluímos mais uma lição de aprendizagem. Na próxima aula, Constipated - Gripe, prisão de ventre ou mito urbano?

Natalidade em queda

Se querem saber porque é que cada vez nascem menos crianças em Portugal, podemos já ficar por aqui – tal deve-se porventura ao facto de cada vez mais gente passar mais tempo a ler blogs inúteis em vez de andar a assegurar a sobrevivência da raça lusitana.

Se querem saber coisas que estiveram em baixa neste Natal, então sim, devem aliviar-se um pouco do enfardamento de fritos a que se submeteram e seguir com alguma atenção as próximas linhas

- SMS’s natalícios – Abençoada preguiça/crise dos artistas do costume. Em vez de receber 50 mensagens plenas de falta de criatividade ou então 2 sms criativas, repetidas 50 vezes por arrastão ou até mesmo votos cravados a martelo de um qualquer site inspiracional de 5a categoria, a colheita deste ano foi fraca. E fraco, nesse capítulo é sinónimo de paz e alegria para os meus lados.
- Crises estomacais – O meu estômago que, ao exemplo de um qualquer casapiano, tem sofrido alguns abusos, portou-se este ano como um campeão. Nem mesmo o cheiro ao bálsamo de urina, certamente prenda de Natal, que um idoso ostentava hoje pela manhã no bus o fez vacilar.
- Música no Coração – Posso ter estado desatento, mas entre filmes bíblicos de bradar aos céus e programação tipo farinheira, não vi passar por aí este clássico intemporal que manieta o imaginário de crianças dos 4 aos 400.
- Postais e calendários pintados com o pé, com a orelha, com o lábio superior, a axila ou até com a covinha no queixo. Dá-me ideia de que esses pobres artistas perceberam finalmente que mandar calendários de borla e esperar receber um donativo de volta, em Portugal é estar a pedi-las.

Dado estar a ponderar um jejum de fim de ano para contra-balançar, é possível que na minha meditação me ocorra mais qualquer coisa. Entretanto vou ali continuar a inventar desculpas para evitar passagens de ano foleiras e já volto.

Blink 182, Miss You

23.12.08

Bolas de Natal



Por estes dias, entre declarações anti-consumismo de Natal, intervaladas com corridas às escondidas para comprar prendas para mim, disfarçadas de prendas para os outros, ainda tiveram a lata de me obrigar a trabalhar.
Se é verdade que isso me retira algum tempo para iluminar o vosso mundo sombrio, tal não quer dizer que não esteja atento ao que se passa. Vai daí, aproveito a altura para deixar aqui os meus “Bolas de Natal”

- Bolas que já não posso ouvir a palavra “crise”. No noticiário de ontem na RTP, a palavra crise foi proferida cerca de 259 vezes. Da crise de fígado, ao Pai Natal em crise, passando pela crise de imaginação, parece que tudo o que acontece no mundo deriva de uma crise. Incluindo este post.
- Bolas que o “Australia” do Baz Luhrmann é uma bela de uma banhada. Já o vi em ecrã cinematográfico e entre a intragável Nicole Kidman (sim, é azedume pessoal) e um argumento nos antípodas da coerência e da qualidade, salva-se muito pouco. Talvez só um momento Fá para as senhoras com o Hugh Jackman e um ou outro apontamento de fotografia e humor ocasional. De resto, podem voltar todos para o Moulin Rouge que não se perde muito.
- Bolas para as lembrancinhas. Se não vão comprar uma coisa original (não confundir com cara) ou, no mínimo, interessante, não comprem nada. Já vi tanta gente a comprar livros do cócó que pensei que o papel higiénico nos hipermercados estava esgotado.
- Bolas, para as refeições intermináveis, por isso fujam da mesa, se não têm fome. Nunca se viu gente gorda em campos de concentração, por isso os almoços/jantares de Natal não são prisões e essa desculpa é batida.
- Bolas para as prendas para a última hora. Em vez de gastarem tempo e dinheiro nas mesmas, invistam antes nas desculpas de última hora. Alguns dos meus melhores momentos natalícios surgiram com belas desculpas inventadas à última hora.
- Bolas, que a rede de mupis da Intimissimi goleava a da Triumph e aqui não pesa só o facto de eu achar que a Claudia Vieira é um saleiro com bom aspecto, mas com muito pouco sal lá dentro.

E, finalmente, bolas para quem anda obcecado com os planos da passagem de ano e sente a obrigatoriedade de festejar algo à pressão. Obrigação e diversão juntas são actividades que não combinam lá muito bem, parece-me a mim.

Bem, vou ali enfardar umas rabanadas de vento, enquanto penso como vou convencer algumas pessoas de que eu é que sou uma rica prenda para este Natal.

George Benson – Breezin (para aquele lounge old school de Natal)

17.12.08

Adeus ó vai-te embora


Não tenho jeito para lidar com despedidas emotivas. Nem com despedidos emotivos. Em ambos os casos trata-se de lidar com gente que obviamente não está a funcionar com os cilindros racionais todos e vai exigir de mim coisas que eu não estou disposto a dar. E isto inclui lenços de assoar.

Não pensem com isto que eu sou um traste. Aliás, para quê pensar algo que podem assumir como certo. No entanto, sou um rapaz cortês e sei que é suposto, pelo menos em relação às despedidas, algumas palavras de cortesia visando um entendimento social minimamente aprazível.
É por isso que, em situações triviais, digo “Adeuzinho”, “Tchau” e/ou “Até amanhã” às pessoas com quem me cruzo quando saio por exemplo do trabalho, incluindo aquelas de quem cortava na casaca 10 segundos antes. Não discrimino entre a senhora da portaria e o CEO, leva tudo pela mesma tabela em termos de saudações.

Isto leva-me ao pedido que pretendo fazer. Para mim, as expressões básicas são suficientes para manter a calma e a ordem entre as hostes. Não é preciso grande criatividade ou uma pauta com acordes para que eu tenha alguma consideração por alguém que se despeça de mim. Cenas tipo “Olarilolé, já vais assim é que é” ou “Vai p’ra casinha vai? Então beijinho e cuidadinho” não são aconselháveis, nem valem pontos na caderneta da próxima vez que nos encontrarmos. Aliás, contribuem até para um aumento dos níveis da substância “blaaaaargh” no meu sistema e isso não é bonito de se ver.

Mas, acima de tudo, se porventura nos cruzamos fora deste espaço virtual ou em missivas de paz e amizad, NÃO, mas é mesmo NÃO me usem a expressão “ABREIJOS” em comunicação verbal ou escrita.
É foleira, tem pinta de arranjo de rancho folclórico e é daquelas expressões merdosas que vai pegando tipo moda, primeiro num email, depois noutro, alguém arrisca despedir-se de um grupo assim, a moda pega e o caldo entorna.

Não sei se esta expressão é recente ou não, sei que só de há uns tempos para cá a comecei a ouvir/ler e cheguei a ponderar cegar-me com um garfo ou ouvir folclore afegão até à surdez para não me sujeitar mais a isso.

Querem despedir-se das pessoas? Então façam-no ordeiramente e sem grandes invenções.
Querem armar-se em pequenos saltimbancos criativos e virem-me com expressões dessa cepa? Então preparem-se para correr...

Sound of Music OST – So long, Farewell

15.12.08

Aproveitando a boa vontade da época, para fazer trocadilhos miseráveis

Aquele falecido cantor tinha umas unhas horríveis porque nunca ligou quando lhe diziam “Não Roy Orbison”.

Aprecio aquele futebolista holandês que seguiu os conselhos da mãe quando esta lhe disse “Não sejas Ruud Van Nisteljroy”.

Há gente que acredita no seu potencial, apesar das dificuldades. Imagino a cara daquele miúdo cego quando lhe disseram “Um dia vais ser Ray Charles”.

Isto é apenas um excerto, mas como não quero levar um enxerto é melhor ficarmos por aqui.

13.12.08

Fecha os olhos, vem aí a prenda do amigo secreto

Conhecido pelo seu humor ácido e omnisciência ocasional, eis Mak a ser recebido alegremente por diversos convivas à chegada de mais um jantar de Natal.

12.12.08

Cuisine Flambée



Antes de relatar o próximo episódio, quero salientar que não sou nenhum idiota na cozinha. Reservo essa faceta para a escrita e embora não seja um Vítor Sobral de trazer por casa, tenho os meus predicados nas artes culinárias. Assim é que ontem, decidido e preparado o acepipe, comecei por ligar o forno para o pré-aquecer uns minutos. Sendo a gás, achei que não era preciso deitar lenha lá para dentro. Feito isto, fui ver a trilogia do Senhor dos Anéis.

Mentira, saí da cozinha apenas quatro ou cinco minutos e, quando me aprestava a regressar, notei um certo cheiro estranho no ar. Não sabendo se era a laca da minha vizinha idosa apressei o passo, ponderando também a hipótese de haver alguém a fazer uma fogueira na escada.

Ao entrar na cozinha vi que o meu fogão/forno se tinha transformado numa televisão e estava a dar o épico “Mar de Chamas” dentro do forno. Não tendo o Kurt Russel por perto, resolvi usar os ensinamentos que tanto filme do género me deu. Toca de fazer o papel de herói, pôr um pano húmido á volta do nariz/boca (que importa se era o de limpar o chão) e desligar o gás em tudo o que era possível. Concretizada a tarefa, nada melhor que aproveitar o frio do Inverno para abrir todas as janelas de casa. Felizmente ninguém ligou à polícia dizendo estar um jovem encapuçado de ar suspeito de um lado para o outro numa casa às escuras.

Em seguida, vendo as chamas ainda em plena animação no forno, lembrei-me de mais um grande ensinamento dos filmes de bombeiros. Se o incêndio é de gás, não lhe dês mais oxigénio. Vai daí, optei por não abrir a porta do forno e alterar a ementa para “Tranches de matarruano ligeiramente tostadas” e esperar que aquilo fosse perdendo força.
Vinte minutos depois desta versão de serão à lareira para gente pobre, achei que era altura de pôr água na fervura, de modo literal. Assim fiz e acabei com o incêndio no forno (isto não é um prato típico), mas não com as consequências. À meia noite ainda estava de casaco e gorro, sentado na sala a ver televisão com as janelas todas abertas, a comer porcarias aquecidas no microondas e a pensar que aquele pivete não ia passar tão cedo.

Feito o rescaldo, fiquei no entanto contente por tanto filme me ter garantido sangue frio e conhecimentos. Fico então a aguardar com antecipada expectativa o dia em que um grupo de ninjas me invada a casa. Sei que também nessa situação vou estar à altura...

10.12.08

Um tiro no Pai Natal - Drama em dois actos


Cenário - Numa sala, o convívio entre adultos aborrece Mak e uma criança. A criança por não perceber do que falam os adultos. Mak, por efectivamente perceber do que falam os adultos e ver que é gente que fala do que não sabe.
Depois de tentar convencer infrutiferamente a criança de que os adultos vão apreciar serem pontapeados nas canelas, surge uma conversa alusiva a um tema da época.

Criancinha incauta, crédula e, ainda assim, corajosa - Mak, o Pai Natal vive na Lapónia?

Mak - Não, que disparate. Há já uns tempos que vive na Bélgica.

Criancinha (armada em sabichona) - Na Bélgica? Então é belga?

Mak (armado em parvo) - Não, é pedófilo.

Criancinha - O que é um pedófilo?

Mak - Sabes quando os gajos do wrestling se agarram com força, todos suados?

Criancinha - Sim...

Mak - Um pedófilo faz isso, só que se agarra a putos como tu.

Criancinha -Oh, tu és um estúpido!

Mak (infantil, mas ainda assim maquiavélico) - Tu és mais, porque vais ficar com as culpas.

Criancinha - Que culpas???

Mak interrompe a conversa, faz um gesto brusco e derrama, como que inadvertidamente, o conteúdo do seu copo na parte de trás das calças de um adulto, que conversa despreocupadamente por perto. Diz "Então...", olha para a criancinha, mas não a acusa. Os pais, bastante menos perspicazes que o filho, percebem logo tudo, culpam o miúdo e mandam-no para o quarto.

Pedem desculpa a Mak, que diz que não faz mal até porque estava na hora de ir andando, porque tem de ir entregar um filme.
Tudo acaba bem, a criancinha aprende uma lição de vida sobre a injustiça e o tipo de gente com que vai ter de lidar daqui a uns anos. Mak aprende a nunca dar um serão por perdido antes do tempo.

Band Aid, Do they know it's Christmas

9.12.08

Granda Paio Natal


Muitas vezes as pessoas perguntam-me - "Com tanto tempo para escrever parvoíce, tu vives de quê?". Obviamente, é um tipo de pergunta a que me dá um especial gozo responder mentindo das mais diversas formas, mas nesta época tão especial, onde toda a gente anda ávida por gastar dinheiro, há que ser moderadamente honesto.

Eu vivo de esquemas, mais precisamente daqueles que os meus talentos escondidos me possibilitam. Um deles é a capacidade de convencer pessoas de que são parvas, não parvas por si (embora isso também seja viável), mas parvas quando se lhes apresentam oportunidades em que podem sair a ganhar (e eu também) e não o fazem.

Por isso, jovens damas que visitam este poiso e cavalheiros cujo gosto para oferecer prendas a senhoras é, no mínimo, duvidoso, ponham os olhos no passatempo que podem consultar na PeanutOak e vejam como com um mínimo de criatividade podem brilhar no Natal, fora do registo habitual do abuso de Vinho do Porto.

Os prémios são estes aqui ao lado e não tenham ideias de que as peças são feitas por mim. Para o meu gabarito, só produzo objectos para a Colecção Berardo. Mas podem crer, tenho sempre alguma coisa a ganhar.

5.12.08

Pensamentos à desgarrada

Deus queira que não seja meu fado ir ver o filme da Amália.

4.12.08

A tua língua sabe a peixe?


Além de me questionar sobre se o Cristiano Ronaldo, motivado pela conquista da Bola de Ouro, ponderar alargar os seus horizontes pessoais e aprender mais um idioma – o português ou se o Lobo Antunes, que ainda o mês passado dizia “Os prémios não são dados a quem os merece, nem pelas melhores razões”, vai usar parte dos 118 mil Euros do Prémio Juan Rulfo de Literatura e Línguas Latinas para emoldurar com estilo essa sua citação, outros assuntos mais importantes passam pela minha cabeça.

O termo “linguado”, usado para definir um beijo em que algumas doses de saliva trocam de lar à boleia de línguas marotas, é a modos que algo limitado e irrita-me que haja pouca alternativa no mercado em termos de nome. Ok, é engraçadito o paralelismo entre a língua e o simpático peixe que ocasionalmente faz parte da minha ementa mas, entre imagens mentais mais agradáveis, não consigo evitar que uma boca com cheiro a peixe ou a textura do mesmo assomem em estilo de pesadelo.
Vejam só a diversidade em inglês e afins, segundo a Wikipedia:

"French Kiss - It is also known as tongue kissing, tongue fighting, pash, hooking up, busting slob, mugging it up, making-out, macking on, meeting, shifting, necking, getting into, snog, slipping the tongue, popping tongue, sucking face, swapping spit, deep kissing, getting off with, pulling, tongue wrestling, slug wrestling, tonsil tennis, tonsil hockey, Frencher (Quebec) and frenching. An older name for 'French kissing' is cataglottis, from cata (down), glottis (throat). In French it is simply embrasser avec la langue (literally, to kiss with the tongue) or the slang version rouler une pelle (to roll a shovel), or "rouler un patin" (to roll a skate (as in ice-skate, or roller-skate))."

Entre nós, os cerca de cinco, creio que arranjávamos algumas sugestões para quebrar a tradição. Não vos parece?

2.12.08

O Cérnebro da questão


Não gosto de terroristas, em parte porque, ideologias à parte, me fazem lembrar um bocado o meu primo Cabé. Quando éramos miúdos, o Cabé tinha o irritante hábito de pensar que era o dono do mundo, sendo um pequeno terrorista que explodia por tudo e por nada, quando não lhe faziam as vontadinhas todas.
Contudo, se é verdade que dos terroristas não me posso queixar pessoalmente de muito, em relação ao Cabé não posso dizer o mesmo, já que para além de inúmeros cromos de eleição, me ficou também com umas quantas revistas pitorescas que fizeram as delícias da minha juventude.

Saudosismos ultrapassados, quero no entanto referir que há uma escumalha que me melindra em maior escala que os próprios terroristas - os comentadores de terrorismo. Chateia-me especialmente a cambada do contexto geo-político estratégico and soi on que ocupa minutos televisivos cheios de pompa e vazios em conteúdo compreensível para o cidadão comum. É um pouco como ir ao restaurante e perguntar como é um dado prato, apenas para ouvir em resposta uma elaborada retórica em francês sobre o papel da beringela ao longo dos tempos.

Nesse aspecto, o que eu acho deveras interessante é um tipo de jogo praticado pós qualquer acto de terrorismo que se chama – Onde está o cérebro?
Se um hotel explode, se são feito reféns algures, se há uma revolta num sítio com 8 sílabas e cerca de quinze consoantes ou se alguém não esvaziou os caixotes do lixo em determinado bairro, tem que haver um cérebro por detrás disso. Nunca há a possibilidade de ter sido uma decisão de grupo, algo saído de um brainstorm ou até de uma democrática votação. Não, é sempre fruto da ideia e firme liderança de um iluminado.

Isso é tudo muito bonito, mas só se não conhecermos a espécie humana. Se um tipo se destaca e começa a dar nas vistas, seja numa organização terrorista ou num centro para idosos, todos os outros ou vão querer fazer o mesmo ou lixar-lhe a vida, só para não lhe dar razão. “Ai achas que era boa ideia raptarmos gente num hotel? Que parvoíce, toda a gente sabe que o serviço lá é péssimo. Sempre com ideias descabidas. Acho é que devíamos decidir entre todos, não é sempre o mesmo, não é verdade? Seria do interesse de todos muito mais um piquenique no bosque, seguido de raptos no parque de campismo mais próximo.”

Cá para mim, continuo com a ideia que as torres de NY só foram a baixo porque os terroristas não chegaram a consenso se iam à Estátua da Liberdade, ao Empire State Building ou de férias para a Jamaica. E olhem que não há nenhum cérebro por detrás desta afirmação.

28.11.08

Foge, é fim de semana prolongado



Através de conversas com gente que insiste em responder às minhas evasivas com os seus planos detalhados para a vida e, ocasionalmente, para o fim de semana, percebi que tudo quanto é gato sapato vai para fora nestes três dias do feriado de São Ordenado ou São Subsídio de Natal, consoante os casos. Da pousada romântica, ao retiro espiritual ou até passando pelo destino internacional, há para todos os gostos. Até porque o Estado já deu providência aos bancos e a crise também pode esperar três dias.

Que não se pense que isto é inveja. Basta querer e, todos os dias, me basta um pulinho para estar nos EUA, no Brasil, em Luanda ou em Londres. Tenho é um conceito diferente de escapadinha, já que poucos dias nesses destinos às vezes sabe-me como se estivesse apenas a comer as entradas num restaurante de grande categoria. As pessoas normais, em vez destes paralelismos idiotas diriam apenas “sabe-me a pouco”.

Vai daí instituí um programa diferente este ano. Nestes três dias vou-me enfiar numas barracas algures. Aposto que se conseguir deixar a consciência em casa (que ela até é fraquinha e o frio faz-lhe mal) vou voltar de lá sentindo-me rico, privilegiado e com muito mais amor pelo próximo. Há quem consigo isso de forma mais fácil, mas eu sou bronco e preciso de um reforço extra.
Afinal de contas é Carnatal e ninguém leva a mal.

Talking Heads, Road to Nowhere

27.11.08

Ir de encontro à Gramática

Acreditem, não sou daquele tipo de merdas que corrige cada pormenorzinho que se diz ou escreve por não estar em conformidade com as normas gramaticais vigentes. Em vez disso, sou daquele tipo de merdas que corrige coisas que não estão em conformidade com os meus padrões de sanidade mental e/ou raiva mal contida.

Posto isto, segue-se uma pequena demonstração audiovisual daquilo que pretendo ilustrar enquanto erro comum que já vi acontecer tanto em noticiários, como com o gajo que toma uma bica ao meu lado e até com pessoas que tinha até em alguma (pouca) consideração.

Exemplo 1 – Neste caso, pode dizer-se que os Chefes de Estado FORAM AO ENCONTRO uns dos outros, tirando do Bush, possivelmente por terem visto que ele saiu do WC sem lavar as mãozinhas, na melhor das hipóteses.

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Exemplo 2 – Nesta situação, o objecto da reportagem FOI DE ENCONTRO ao próprio do repórter. É caso para dizer que foi uma reportagem chocante.



Em função destes didácticos exemplos, não é difícil perceber qual a diferença. Não vamos de encontro a objectivos, a não ser que o objectivo seja exterminar alguém via atropelamento. Por isso, cuidadinho minha gente...

E o primeiro que se lembre de me chamar Edite Estrela que dê graças por poder fazê-lo sob (e não sobre) a capa do anonimato cibernético.

26.11.08

A propósito de filmes bestiais


É certo que jovens tipo o Bugs Bunny ou o Mickey são gandulos que já aí andam há muitos e bons anos e a sua existência faz sentido e tem alegrado a vida a muita criança e adulto. Mas o que me irrita, nos dias de hoje, é ver muito entusiasmo à volta de películas feitas com precisão cirúrgica tipo “A idade do gelo”, “Madagascar”, “Panda do Kung Fu” ou o “Nemo” e muito pouco pela preservação da vida da bicharada real, a não ser para os transformar em tapetes ou deliciosas peças gourmet.
Os estúdios gastam balúrdios para produzir isto ao pormenor, contratando actores de gabarito para dar vozes aos bichos. E royalties para a bicharada? E percentagem dos bilhetes a reverter para que não passemos a falar deles só no passado? É tudo muito divertido, mas não tarda nada são mais os animais na cadeira do cinema do que exemplares verdadeiros das vedetas do filme.

O problema é que as pessoas, para desanuviarem e rirem um bocado são capazes de dar 5 Euros para ver um animal que diz piadas no ecrã (e não me refiro ao Fernando Rocha) mas nem 1 Euro dariam para um fundo qualquer que andasse a ajudar os pandas a não se transformarem em chinelos. Nada contra a diversão, mas muito contra a descontextualização de “Ah, mas nós não temos pandas/pinguins/zebras whatever cá”. Lá dizia o mítico programa da televisão “Os animais são nossos amigos”, evitando sabiamente reproduzir a frase no sentido inverso.

Fábulas com animais já fazem parte da história, mas muito animais também já só fazem parte da história. Não devia ser preciso que um animal como eu (sem direito a filme) é que se tivesse de lembrar destas coisas.

Vão ao cinema, riam-se com os bichinhos, mas depois mandem-lhes ao menos um postal a dizer que gostaram muito. É que eles são bestiais, mas nós também podemos ser bestas.

25.11.08

Reminder - Nunca sorrir no elevador


Costumo acordar bem disposto. Não sei se é a pura consciência de que acordar é o contrário de estar morto ou apenas o desfrutar do facto de ter lençois e não jornais a cobrir-me, mas o facto é que até consigo ostentar um sorriso matinal na fronha.
Ora essa atitude, para boa parte das pessoas, constitui uma fonte de irritação pois “Com que direito este palhaço está para aqui a atazanar-me a manhã com este ar sorridente”. Não sendo eu nenhum santo, confesso que quanto mais macambúzia me parece a pessoa, mais airoso eu fico, especialmente se vir que a coisa a irrita.

No entanto, episódios como o que me sucedeu esta manhã levam-me a repensar a minha atitude. Talvez nem sempre seja boa ideia sorrir logo de manhã. Talvez esse sorriso leve certas pessoas a pensar que estão à vontade. Talvez isso depois dê num lindo serviço...

Ia eu a subir no elevador rumo ao meu estaminé profissional, quando vejo que corre alguém para ainda tentar apanhar o mesmo. Enganando-me no botão, em vez de fechar a porta mais depressa, voltei a abri-la. Pronto, passo ao menos por cortês. Entra em passo rápido uma jovem de tailleur, possivelmente funcionária de uma firma mais respeitável do que a minha. Traz a mala numa mão, o computador ao ombro, um casacão no braço e mastiga avidamente uma bolacha de água e sal.

Com ar cândido levanta os olhos em sinal de agradecimento. Eu sorrio (parvo). Dá mais uma trinca na bolacha e cai um bom bocado no chão. “Vais apanhar essa merda não vais?” penso eu. Não ia, especialmente porque confia no seu pé direito para chutá-la para o canto do elevador. Sente-se observada, levanta de novo a cabeça e depara como meu sorriso bem mais amarelado. Em vez de baixar os cornos, resolve retribuir, mostrando uma instação artística de dentes, ferro e muitos bocados de bolacha.
Reprimo o enjôo, corro para as portas que milagrosamente se abrem e juro para nunca mais.

24.11.08

Feeling of the day

Hoje estou um bocado assim. Não sei se é a gravidade do efeito ou se é o efeito da gravidade.

Ainda bem que trabalho com papel e caneta e não com matracas (a não ser que façamos uma metáfora que inclua gente à minha volta que fale desalmadamento)...


21.11.08

Já tens planos para o terramoto do fim de semana?


Sinceramente, agradeço a quem teve a iniciativa de marcar um simulacro de terramoto para este fim de semana. É uma resposta de mão cheia para quem se queixa de falta de oferta em termos de actividades originais em Lisboa. Isto para não falar que, para um povo que não é conhecido pela sua organização, ter um cronograma de um terramoto, permite presumir que, quando se trata de desgraça, estamos sempre prontos para a rambóia.

No entanto, tenho um reparo a fazer. Com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, as sobreposições de eventos acabam sempre por suceder e é aborrecido para quem quer fazer parted a festa. Por exemplo, neste momento estou indeciso entre ser soterrado amanhã num aluimento de terras nos Prazeres ou ficar encarcerado no túnel do Campo Grande.
Domingo, a história repete-se… juntam-se uns amigos para constar numa lista de desaparecidos no rebentamento de uma conduta de água ou uma explosão numa superfície commercial é melhor para passar uma tarde em grande.

Embora aquela sensação de surpresa de terra a fugir debaixo dos pés esteja perdida no meio de uma agenda que tem tudo previsto ao milímetro, até apetece ser vítima de uma catástrofe natural em Lisboa. Espero que as equipas de reportagem da TVI também levem as coisa a sério e ponham em prática o dramatismo tradicional. Não é por ser a brincar que vão começar a desiludir as pessoas.

Por isso, meu amigos, escolham bem a vossa actividade para o fim de semana e, quem sabe, talvez nos encontremos num qualquer cenário de crise, maca de ambulância ou cama de campanha espalhados aí pela capital.

Com tanta emoção e planeamento desta vez, isto só prova que quando as coisas correm mal é porque as pessoas não planeiam as catástrofes como deve de ser. Depois queixam-se que não teve gracinha nenhuma…

20.11.08

Tragédia Queirosiana

Até agora, o conceito de tragédia queirosiana aplicava-se maioritariamente à obra referente à Rua das Flores. Hoje em dia, a expressão é extensível a cada jogo da selecção nacional, o que até seria positivo se a coisa incentivasse ao gosto pela literatura nacional.
Embora isso seja pouco previsível, da maneira que isto corre, para muita gente poderá causar menos sofrimento ler durante 90 minutos a ver um joguinho do grupo de jogadores que alinha num conjunto chamado Portugal.

É o que dá terem ido buscar um senhor que faz parte do bando dos ex-bigodes. Para mim, gajo que tenha usado bigode e por outros motivos que não legais o tenha deixado de usar, é sempre de suspeitar. Ou se é homem e se usa bigode contra tudo e todos ou se é um rato (como eu) e nunca se usa bigode. Ficar a meio caminho é coisa que não lembra ao demo. Vide exemplos: Artur Jorge, António Oliveira, Humberto Coelho e Carlos Queiroz.
Só o Scolari, com os defeitos todos que possa ter, se manteve fiel e inclusive reforçou o estatuto com adjunto de bigode.

Tenho amigos que ainda têm a crença que isto é apenas um mau começo e o futuro será risonho. Também tenho amigos que acreditam que o mundo vai acabar em 2012 e outros que acreditam que o Governo nos põe coisas na água. Por aí se vê o que eu confio nos meus amigos.

Em honra da banhada dos 6-2, fica este magnífico tema de Jorge Ben Jor, em que se pode adicionar a palavra Golos no fim da frase – Chove Chuva

18.11.08

Aspira dores de ouvidos


Estudos científicos desenvolvidos por uma entidade idónea e competente, vulgo eu, concluíram que o aspirador contribui de forma decisiva para a poluição sonora citadina. Através de uma observação experimental continuada, este painel singular concluiu que a exposição continuada a este utensílio pode causar surdez e irritação por transferência em cidadãos não munidos de leitor de MP3.

Só assim se explica que as pobres senhoras das limpezas que regressam a casa de manhã nos transportes públicos falem umas com as outras como se estivessem a 100 metros de distância, quando na realidade vão coladinhas.

E olhem que eu não quero saber que a Claudina não faz nada e reclama muito. Nem que o filho da Odete lhe tira o dinheiro todo para gastar em droga.

Não quero mesmo. Juro.

17.11.08

Desavenças Conjuncionais



Tenho ideia de que ela já suspeitava disto. As pistas foram-se acumulando e, chegada esta altura, já não era possível continuar a esconder. Este fim de semana ganhei coragem e admiti-lhe: "Olha, não sei como aconteceu, mas o facto é que aconteceu. Quero que saibas, aqui e agora, pela minha boca que há já dois meses que sou amante da perfeição".

Levei uma bofetadita tolerante, mas ainda assim vigorosa. Há piadas que não fazem sentido ao domingo de manhã...


Mr. Bungle, Pink Cigarette

14.11.08

São duas carcaças, um pão de Mafra e terapia emocional por favor



Sou a favor do comércio de bairro, nomeadamente mercearias e padarias, e não é por causa do saudosismo e apego às tradições de antigamente, que fazem chorar qualquer calhau, tirando eu.
Tudo bem que os preços são elevados face às grande superfícies mas, pelo que observo regularmente, não se deve arranjar psicanalista mais barato. Bem vistas as coisas, onde é que se arranja uma boa consulta pelo preço de pão para almoço e jantar?

Entre os cumprimentos da praxe, o pedido e o acto de pagar, pode-se desabafar sobre problemas em casa, sobre a solidão, sobre a incerteza do futuro profissional e até sobre o facto da senhora do Corsa Azul andar mais arranjadinha. O merceeiro/padeiro não vai reclamar e vai fingir-se atento, pois a clientela tende a rarear nos dias que correm e boa parte dos outros fregueses vai sentir-se satisfeita por poder participar num painel clínico em que opiniões acutilantes como: “Deixe estar, vai ver que amanhã se Deus quiser já se sente melhor”, “Olhe, eu sei bem o que isso é, lá em casa é a mesma coisa” ou “Isto está cada vez pior, é viver cada dia o melhor que se pode, porque nunca se sabe o amanhã” são valorizadas ao nível dos melhores medicamentos.
Mas, apesar de apreciar sinceramente que aquela corja se despachasse e me deixasse comprar um simples croissant em menos de dois minutos, eu compreendo e encorajo esse comportamento. É que posso não ter pachorra para estes filmes, mas mais vale gastar o dinheiro em couves e vianinhas do que em psicanalistas duvidosos.

13.11.08

Ocultamente famoso

Não é raro termos prova que Lisboa é um centro atractivo para a elite místico-intelectual africana. Já falei disso e, quase todos os dias, chegam às nossas mãos panfletos falando sobre as capacidades destes Professores, Mestres e afins. Embora não sabendo em que tipo de Universidade se dão as cadeiras de Cura de Impotência via Telefone, Análise de Azares I, II e III ou Resolução Prática de Problemas Amorosos, gosto de utilizar o exemplo destes senhores para mostrar que a teoria de que só temos cá mão de obra africana não qualificada é claramente falsa.

No entanto, quis o destino e talvez algum azar amoroso do meu pára-brisas que um folheto do imponente Professor Karim ficasse preso no meu carro. Embora não vos mace com a secção do mesmo em que ele mencionava curar tudo, desde ressacas a problemas da vida, passando por nódoas espirituais na alcatifa, houve uma capacidade deste catedrático que me surpreendeu. Vejamos:




Portanto, apesar de fazer trabalhos ocultos, um termo que leva o comum mortal a crer que ninguém saberá que foram feitos ou quem os fez, o Prof. Karim alardeia fama junto de personalidades do mundo inteiro. Ou seja, o seu anonimato na área do oculto é mundialmente reconhecido.

Concluindo, em jeito de repetição, se alguém quiser um trabalhinho que ninguém saiba que foi feito ou por quem foi feito, toda a gente sabe que o o Professor Karim é o a pessoa certa para o fazer. Digo eu, que pouco sei.

Confuso? Nem tanto, se tivermos em conta que a lógica também é uma coisa muitas vezes oculta neste ramo.

12.11.08

Vais ou precisas de um empurrãozinho?

A simplicidade é uma coisa bonita. Eu, que tanto trabalho já tive a tentar dar nomes a coisas, devia aprender com este exemplo. Ora bem, se temos um encontro grande, mas assim mesmo para o grande, com muita gente, que nome é que lhe vamos dar - Humm, humm, deixa lá ver, hummm, humm... JÁ SEI!!!!

E eu a pensar que o Inatel tinha ficado radical e ia fazer uma espécie de festival de bandas da pesada ou, em alternativa, uma competição de carrinhos de choque e deparo-me com isto...



Imagino conversas pós evento: "Nem imaginas com quem dei de caras no Encontrão" ou "O Encontrão soube-me a pouco, esperava algo mais forte". Cambada de artistas, encontrão a sério é nos transportes todos os dias, agora vêm-me com histórias de teatrinho...

Salt n'Pepa - Push it

11.11.08

História da Desumanidade



Não é para me armar em José Hermano Saraiva, mas surge-me uma pertinente questão histórica - Em termos de armas de arremesso, serão mais antigas as catapultas ou as crianças filhas de pais desavindos?

10.11.08

Conduzindo ao fim de semana


Conduzir ao fim de semana devia ser uma experiência libertadora. Livres de pressas e da maralha que, de segunda a sexta, preenche as avenidas e ruas de Lisboa, seríamos nós, o carro e o prazer da condução descontraída. O problema é que todo o velhote desprovido de Alzheimer pensou exactamente o mesmo.

Eu sou um tipo paciente, não buzino freneticamente mal o semáforo abre, não gesticulo quando o carro da frente vai abaixo e solto apenas ligeiros impropérios perante a ausência de piscas em manobras que o requerem. Acima de tudo, não discrimino o condutor de fim de semana porque, traço geral, é exactamente ao fim de semana que eu conduzo. Mas, há algo no condutor idoso perigosamente à beira da senilidade que me tira do sério.

É certo e sabido que, com a idade, os reflexos diminuem, a memória de curto prazo idem, isto para não falar na visão periférica e na dentição natural. Tendo isto em conta, porque raio é que a maior parte dos velhos que conduz ao fim de semana tem carros cujo tamanho se inclui quase na categoria barco? E não me venham os defensores da terceira idade dizer “Ah coitadinhos, é o carro que têm há muitos e bons anos”. Não é, porque este fim de semana foram Mercedes recentes e Volvos brilhantes que à minha frente desafiaram a lógica das manobras de condução e a minha paciência. Foram BMW’s, Rover’s e outros que tais cuja juventude contrastava com as carcaças ao volante e cujo ar veloz e reluzente surpreendia pela imobilidade com que bloqueavam ruas, cruzamentos e a minha felicidade e descontracção.

Caro idoso, se me lês enquanto preparas a camurça para encerar o teu bólide de fim de semana, aponta isto antes que a falta de memória se imponha. Que tal comprares um carrito pequeno, que não perturbe a tua mobilidade (e também a tua barriguinha) mas também não lixe a vida a quem só quer ser feliz ao fim de semana? Melhor ainda, liga ao teu filho, que a tantos sacrifícios te obrigou, relembra-lhe isso mesmo e pede-lhe para te levar ao jardim ou a almoçar fora no domingo. Tudo bem que o facto de ele ter emigrado para Inglaterra pode ajudar a que não te dê boleia, mas esses 10 minutos ao telefone podem ser os suficientes para não nos cruzarmos na estrada, no caso de insistires em trazer o barco para a rua.

Como diz aquele grupo de pirosas vestidas estilo contentor da reciclagem “Fazes-me esse favorzinho, fazes?”
É que, ao contrário delas, eu tenho cabedal para te furar os pneus...

8.11.08

Erro de perspectiva



Meu conhecido há algum tempo e embora extremamente interessante e merecedor de leitura atenta, este livro de 2003 do Paul Arden continua a ter, a meu ver, uma clara lacuna do ponto de vista da abordagem. É que, para fazer sentido a 100%, o título deveria acabar em "it´s how to make people think you're good".

Hoje em dia, mais fácil do que ler diversos livros de interesse, é comprar esses mesmos livros e dizer que os temos. Poupamos tempo, enchemos estantes e basta ler a contracapa para poder usar isso e passar por culto. De fachada, mas culto.

7.11.08

Aldeia dos Artesãos - Reserva Natural para Profissões em vias de extinção


Olho à minha volta e denoto uma certa preocupação com o futuro de certas espécies animais, cada vez mais ameaçadas de extinção. Tendo em conta que nos planos do catolicismo não há ressurreição para a bicharada, tal atitude vê ainda mais reforçada tanto a sua necessidade como a sua nobreza.
No entanto, não vejo preocupação semelhante em Portugal quando penso no maior animal de todos, vulgo nós, e em algumas das suas espécies mais exóticas. E, antes que algumas mentes divaguem, não me refiro a strippers e a maus actores, espécies essas que me parecem em claro crescimento.

Falo dos sapateiros e dos amoladores, de marceneiros e outros que tais, cujos últimos exemplares já se contam quase pelos dedos das mãos e, nalguns casos, só já os avistamos a serem torturados em reportagens de noticiário com música de fundo melodramática. Diria mesmo que as hipóteses da maior parte desses artesãos encontrar um discípulo que seja e assegurar “descendência” são quase proporcionais às chances de eu me tornar campeão nacional de breakdance .

Por isso, não percebo porque não se criou ainda um parque semelhante, por exemplo, ao Badoka Park onde estivessem reunidos alguns dos artistas que restam nos mais diversos mesteres, homens e mulheres, num cenário tipo Aldeia dos Artesãos onde pudessem conviver com jovens rústicos e rústicas, sem aspirações pós-modernas, tendo em vista a sua reprodução controlada em ambiente vigiado.

As cri(anç)as sorveriam todo um ambiente de artes tradicionais, a par de umas boas chapadas para uma educação à antiga, aumentando assim exponencialmente as hipóteses de sobrevivência da raça. O parque seria aberto às visitas de crianças e adultos, mas apenas os primeiros teriam contacto directo com os artesãos. Primeiro, porque é muito mais divertido descobrir por si só, espécies estranhas sobre as quais só ouvimos os nossos avós falar. Segundo, para evitar que empresários do Norte e jovens freaks com a mania que são muito retro perturbassem os rituais dos espécimes protegidos.

A Aldeia dos Artesãos daria ainda a hipótese aos pais de, no final da visita, doarem os seus filhos para património da aldeia, caso tivessem comprovativos financeiros que atestassem a sua falência técnica, o sobreendividamento ou a hipótese clínica de que o miúdo nunca viesse a ser jogador da bola. Deste modo, não só se aumentava o número de potenciais artesãos adoptivos, como se reduziria o número de crianças a caminho de uma adolescência que não augura nada de bom.

É certo que ainda faltam alguns pormenores a este projecto, mas se algum governante deste país faz deste blog a parte mais útil do seu dia, é bom que esteja a tirar notas. É que, com uma ideia deste gabarito a germinar, depois ainda se admiram quando eu me rio quando oiço dizer que faltam ideias para o país...

The Tokens, The lion sleeps tonight

6.11.08

Queres ser rico? Vai morar para Batman



Numa iniciativa que tem tanto de absurda como de genial (um pouco à imagem deste blog), a o presidente da câmara da cidade turca de Batman está a pensar processar Christopher Nolan, realizador de "Batman Begins" e "Dark Knight", assim como o resto da turminha de Hollywood e empresas afins, por apropriação e uso indevido do nome Batman.
Embora eu considere que isto faz do senhor um verdadeiro Joker, não deixa de ser uma manobra de marketing muito apropriada do ponto de vista turístico para a bela localidade de Batman. Não faltarão com certeza maluquinhos vestidos de lycra e couro a fazer já grandes planos para as próximas férias em solo turco.

Sabendo eu da tendência para o chico espertismo dos autarcas nacionais, creio que depois desta notícia pouco faltará para assistirmos a um processo da freguesia algarvia de Sagres à Central de Cervejas ou da freguesia de Casa Branca aqueles bandalhos dos americanos, por uso abusivo do seu nome para alojamento de indivíduos que clamam ser presidentes.

Não digam que eu não avisei...

5.11.08

Preto no branco

Para que depois não digam que eu não sou um gajo atento ao que se passa no planeta, eis o paradoxo:

Nunca um dia negro trouxe tanta expectativa positiva ao mundo*.






*Incluindo à Dona Alzira, que tomou o pequeno almoço no café a meu lado e disse estar muito contente pelo Sr.Alfama que lhe fazia lembrar um moço dos Correios que tinha sempre um sorriso para ela.

4.11.08

Os unidos da América


Como devem ter reparado, estive em recolha nos últimos dias. Afinal de contas, hoje era um dia importante para mim, já que ia ajudar a decidir o futuro de uma das nações mais poderosas do mundo. Levantei-me logo pela fresquinha e dirigi-me à embaixada americana, para exercer o meu direito de voto.
“Sorry, no can do” disse-me um simpático cônsul, acompanhado de dois amigos armados até aos dentes, que arrisquei serem militares. “Então, mas as eleições não são hoje amigo?” perguntei com ar estupefacto “Não é hoje que decidimos se pomos o Barraco Alfama ou o fóssil na Casa Branca?”. “Yes, but isso é só back in the States. Here a votação já foi, last week...”.

Nessa altura comecei a enfurecer-me “Mas, e ninguém avisa??” disse, elevando a voz. No entanto, acalmei-me logo quando os amigos de metralhadora deram um passo na minha direcção. “Well, nós avisámos, mas tu não seres american. Por isso, like we say in our country, fuck off, que eu já estar farto de portugas que think que têm the right to vote for the President of the Universe”.

Acompanhado por dois matarruanos e várias peças de artilharia, vi-me frustrado de novo no meio da rua. Então, tantas notícias, tantos enviados especiais, tanta reportagem detalhada on the spot sobre onde o Obama corta o cabelo, sobre o tipo de parafusos que o McCain tem no corpo ou a distância em metros entre cada divisão na Casa Branca, isto para não falar no que come o periquito do sobrinho do vizinho do tio avô da cunhada do McCain e, no final de contas, isto não tem directamente nada a ver connosco.

E pronto, decidi, já não tenho pachorra para quem vive as eleições dos camones como se fossem as nossas. Ou melhor, vejo muito mais conversa, estudo e reportagem e análise detalhada feita por portugueses do que quando as eleições são em Portugal. Amigos, os senhores são importantes sim senhor, mas não vem de lá o Messias que vai transformar pedras em McDonalds e dívidas em rolos de notas. NÓS NÃO VOTAMOS E NÃO DÁ PARA TROCAR O CAVACO E O SÓCRATES PELO MCCAIN E O OBAMA.
Por isso, acordem para a vida.

Já agora, vão mas é ver se têm dinheiro no BPN e deixem-se de tangas.

Presidents of USA, Lump

30.10.08

Argentina nas mãos de Deus (e do Diabo)

É curioso ver como, por vezes, as coisas se encadeiam e refiro isto apenas como a justificação de que preciso para falar de futebol. Vem isto na sequência de, na semana passada, ter tido a oportunidade de ver o documentário “Maradona by Kusturica” onde confirmei apenas algo que já previa - quando se juntam dois tipos que têm algo de génio/louco (e amizade por substâncias ilícitas) o resultado, quando não há instrumentos afiados pelo meio, pode ser engraçado.

Nesse documentário, confirmei também que há dois sítios na Terra onde Deus não é um individuos de longas barbas brancas, túnica a condizer e voz ribombante, mas sim um gordito atarracado com cabelo para dar e vender, problemas de atitude e uma relação mágica com uma bola de futebol – Argentina e Nápoles. Da criação de fenómenos como a Igreja Maradoniana ao estatuto imortal alcançado numa cidade pobre do sul de Itália, é fácil observar que a adoração pelo pequeno marciano (assim definido pelo irmão para aí aos 10 anos) vai muito para além da lógica.

Já esta semana, observei essa mesma ausência de lógica ao ler que Maradona foi designado seleccionador argentino. Quem assumiu essa decisão não assumiu um risco, assumiu vários e snifados em sequência. Este Deus nos campos, fora deles é um homem com falhas, muitas e variadas, muitas delas assumidas pelo próprio, mas que nunca se negará aquilo que ama - o futebol argentino.

Maradona já ganhou o estatuto de imortal, apesar de episódios como este. Não precisa de tentar mais milagres ou converter mais fieis. Posso estar muito enganado, mas, para além de um efeito moralizador, vejo muito pouco de bom em ter o Diego à frente do comando técnico de uma selecção como a Argentina. Imaginem, o Eusébio à frente da selecção, seria bonito mas muito pouco rentável parece-me, embora por esta altura tudo pareça melhor que o Queiroz.

É lógico que a mim me dá jeito, pois piadas fáceis são o prato do dia, tal como “Vamos ver a Argentina a jogar colada à linha”, “Maradona procura fonte de inspiração no banco” ou ainda “O resultado ficou em branco, o nariz de Maradona também”, mas o facto é que não me dá gozo bater num ceguinho que me dá tanto gosto rever em cada momento que passou no relvado.

A não ser que Maradona queira ser seleccionador português. Nesse caso, esqueçam tudo o que eu escrevi...

29.10.08

Posts com pinta

Eu ia falar sobre o Maradona (e ainda vou), mas valores mais altos se levantam. Até hoje, eu pensava que era criativo. Depois de ter visto o site da empresa Tintas com Pinta, percebi que não passo de um traste... O senhor desta empresa, depois de promoções com presuntos e cordeiros, continua a inovar e até já tem honras de destaque na TSF.

Vejam o site com som e maravilhem-se com a mente humana...

27.10.08

As balelas públicas dos condomínios privados


Como o mercado imobiliário já era pouco especulativo (e que se lixe a facada da Subprime party), de alguns anos para cá foi-se implementando a bela estratégia do condomínio privado a granel.
Se, em teoria a ideia de um condomínio privado tem algum cabimento, embora importada certamente de cenários além fronteiras onde a grandeza (falo também de espaço físico) é mais comum, na prática já chegámos ao ridículo.
Condomínio privado, para mim, é sinónimo de habitação de luxo em espaço reservado, que pelas suas características tem algo que a valoriza e distingue das demais. Seja pela localização de eleição, seja pelos pormenores de construção, seja pelo facto de 80% das habitações estarem reservadas a supermodelos nórdicas. E, por isso tudo e mais um par de botas, os condomínios privados eram caros, muito caros, fora da dimensão comportável aos mortais mais comuns,

Mas, a lógica empresarial inverteu o cenário. Alguém se lembrou que se podia continuar a utilizar a nomenclatura “condomínio privado”, enquanto espelho de habitação distinta e admitamos – elitista, mas agora apenas como chamariz. Ao início, reduziu-se apenas um pouco no luxo, na localização, que agora já não tinha de ser bem perfeita, na % de modelos finlandesas, que também já só era preciso ser para aí de 40%. Tudo isto discretamente, continuando a gritar “condomínio privado”, já que a coisa se vendia e a bom preço.

O consumismo desenfreado, a mania das grandezas e a estupidez em doses generosas fizeram o resto. Hoje em dia temos condomínios privados a 10 minutos do centro de Lisboa (percursos feitos em F-16 é certo) e a 2 minutos de bairros sociais (e gente perigosa, daquela que convém ter muros para evitar). Temos condomínios literalmente debaixo da ponte, temos “Quintas”, “Jardins”, “Terraces” e outros nomes pomposos que escondem projectos feitos às três pancadas e antigas Charnecas e outros lugares de nome bem menos atractivo. Temos construção de segunda a preço de primeira e têmo-la em catadupa, até que a malta perceba que por vinte condomínios que nascem, só um ou dois têm mesmo potencial para o ser e olhem que estou a ser generoso.

Mas, tal como os carros de luxo, os condomínios privados continuam a ser vendidos muito mais facilmente, do que muita habitação mais fiável, mas certamente muito menos chique. É o que dar viver numa era onde mais importante do que pensar se a corda aperta no pescoço, é saber se se vai ficar bem na fotografia quando se for enforcado.

Madness, Our house

24.10.08

Pronúncia do Norte

Queijo Brie e Croissants são por norma as únicas coisas provenientes de França que me fazem sorrir, tirando a Laetitia Casta é bom que se acrescente.
No entanto, sou um tipo que, quando questionado, gosta de dizer que não tem preconceitos, pelo que ontem me dirigi ao cinema para ver o "Bem-vindo ao Norte". Aproveito também para uma especial saudação à gestão do Alvaláxia, por ter cedido uma sala a duas pessoas só para visionar este filme. Não é todos os dias que se encontra gente tão simpática, mas há que referir que, sendo eu a pedir, tudo se facilita.

Não é o primeiro filme francês que gosto, e sei que é danoso para a minha imagem pouco intelectual admiti-lo, mas neste caso o interessante é ver que esta é uma comédia simples, sem pretensões elitistas, mas também sem cair de chapa no território da alarvidade. Para quem domine o francês ao meu nível (baguette, raquette, manette) é certo que alguns trocadilhos de linguagem se vão escapar, mas também é verdade que, neste caso, a tradução não assassina o filme.
É daqueles filmes em que um bom argumento (também não é caso para dizer que é um argumento épico) e actores competentes fazem de um filme cómico aquilo que é suposto - uma hora e picos de boa disposição, sem muito que pensar.

O trailer, que aqui vos deixo, não faz a honra devida ao filme, mas é como este blog, eu também sou muito melhor do que aquilo que escrevo.

23.10.08

É-Vidente que não



Entre aqueles que efectivamente têm capacidade para prever o futuro, haverá certamente uma expressão que lhe surgirá na mente ao lerem estas linhas – “Eu já sabia”. A verdade é que depois de este mês ter sido apresentado à Maya, senti que a minha espiritualidade está atingir novos patamares, quase ao nível do meu bom senso.

O meu problema é com a escola de videntes portuguesa, e deixo assim já de fora a classe colegial africana de Metres, Professores, Doutores e outros grandes académicos publicados nos mais reputados suplementos de classificados e em cartões distribuídos à saída do Metro.
Entre grande parte dos videntes portugueses há toda uma espécie de estratégia que me leva a pensar que, ou esta gente vê mesmo o futuro ou então não vê um palmo à frente do nariz. Vejamos este exemplo que se passou perto de mim:

José M. é vidente ou pelos menos pensa que é. Usando o seu talento visionário, vislumbra um espaço numa pequena superfície comercial no centro de Lisboa. Deve também ter visto que nesse espaço já tinha funcionado recentemente um quiosque Vodafone e uma sucursal de unhas para madames, ambas com fracos resultados ou melhor, nenhuns resultados.

José M. terá então amaldiçoado o facto de não ter trocado o seu baralho de Tarot enquanto estava na garantia, já que a visão que este lhe proporcionou estava bastante turva. Decide então arriscar e tornar-se ele próprio o “dono” desse espaço, para exercer o seu mester.
È nessa altura que José M. amaldiçoa também o facto de ter usado um abrasivo na limpeza da sua bola de cristal, que não lhe permitiu ver que o espaço não reunia a privacidade necessária para dizer à Dona Laurinda que o filho não é sensivel, mas sim homossexual. Vai daí, José M. monta uma tenda de campanha dentro do centro, com a discrição que só as cornucópias de diversas cores e feitios conferem. Não contente, resolve queimar incenso na sua tenda/gabinete de atendimento, o que faz com que cada vez que a abre saia de lá uma bruma deveras mística.
Nas primeiras semanas, o entusiasmo de José M. era bem visível, através dos inúmeros cartazes que afixou em todo o centro. Apesar de amaldiçoar os búzios retidos na alfândega tal não lhe retirou vivacidade, já que insistia em falar sozinho como se estivesse a dar uma consulta dentro da sua tenda, uma estratégica comercial inovadora que merece louvor mas que, quando analisada num ponto de contra-luz, se pode revelar pouco produtiva.

E assim, ao fim de um mês, o vidente José M., ter-se-à porventura dedicado a outra actividade quase tão nobre como essa – dar milho aos pombos, uma vez que desmontou a tenda e se fez à estrada, na primeira atitude clarividente que o vi ter. Certamente que, se lhe tivessem perguntado, a previsão da crise do Sub-prime teria sido fácil. Tentar fazer a vida com o futuro das pessoas sem ter condições para isso, isso sim é difícil, especialmente dentro de uma tenda e enebriado pelo fumo do incenso.

22.10.08

Mete Gelo, Lisboa



Já plenamente recuperado dos km’s à beira praia tenho, no entanto, algo que me arrasta o palavreado ainda para o fim de semaninha - A forte chuvada instantânea de sábado à tarde em Lisboa, isto se a descrevermos como as pessoas normais a viram, ou a “devastadora tromba de água”, o “apocalipse revisitado”, o “sinal dos tempos” ou “o horror, o horror”, se forem pela conversa de certos meios de comunicação e de gente que toma comprimidos para o pânico quando se corta numa folha de papel.

Meus amigos, gandulos de tshirt e calções e meninas descascadas na rua já no fim de Outubro, isso é que não é normal (sem querer com isto repreender as meninas). Tudo bem, caiu pedra e gelo durante 15 minutos, mas as consequêcias só provam que nós até a meter água metemos água, passe a redundância.

Depois de muito tempo sem chuva de jeito, é natural que qualquer pluviosidade digna do seu nome ia causar dano, até porque as sarjetas são como as casas de certas pessoas, só levam uma limpeza decente quando recebem visitas importantes. Se a isso juntarmos a intensidade da coisa (sim, por momentos pensei que o vizinho de cima tinha despejado um barril de missangas na minha janela) o caldinho estava feito.

Ai, os túneis ficaram intransitáveis. Ai, ai, as vias coitadinhas ali todas alagadinhas. Ui, ui que o pobre comerciante arrependeu-se de ter aberto um cabeleireiro em vez de um aquário para vender peixinhos. Confesso que, embora não me dê gozo a desgraça alheia (tirando em casos pontuais), esta chuva não me causou pena nenhuma, primeiro porque pecou apenas por tardia, segundo porque é sempre a mesma história e já não consigo ter pena de algo que, embora previsível, toda a gente fica simplesmente à espera que aconteça, para depois se queixar.

A seguir a qualquer Verão, especialmente os Verões de 5 meses que começam a ser hábito, as primeiras chuvas são sempre a mesma coisa. Ninguém faz notícias dizendo “Choveu intensamente e tudo correu bem”, “Os comerciantes revelam o seu agrado pela óptima isolação que o seu estabelecimento possui” ou “Automobilistas festejam com buzinadelas túneis sequinhos e vias com alto poder de absorção após a chuvada de hoje”. Isso é fantasia, o resto é o país real e acreditem que não se prevê que as coisas mudem nos próximos 500 anos.
Se não gostam, mudem-se para África ou, melhor ainda, metam gelo, mas daquele que cai em catadupa do céu, para ver se vos passam as manias da desgraça.

Travis, Why does it always rains on me? (sim, é uma música "sensível")

20.10.08

10 km de Parvoíce



Depois de ontem ter corrido os 10km na Marginal num inovador esquema de preparação que incluiu não treinar, posso dizer que, apesar de não ter dormido mal, hoje estou cheio de Oeiras.

17.10.08

O galheteiro sai do armário



Depois de algum tempo em reclusão, milhares de restaurantes celebraram hoje, com pequenos almoços de carapaus assados com batatas cozidas, o regresso às lides por parte dos galheteiros após anúncio nesse sentido por parte do Ministério da Agricultura.
Tolerante que sempre fui em relação à promiscuidade do galheteiro, tive oportunidade de entrevistar um deles que se dirigia com ar pouco avinagrado para o seu novo local de trabalho, numa série de entrevistas que estou a fazer com objectos inanimados mas, ainda assim, faladores:

Mak - Então meu granda galheteiro, que tal é sair do armário?
Galheteiro - É bom saber que, ao contrário de nós, este assunto nunca saiu de cima da mesa. É uma vitória clara dos direitos dos galheteiros por esse país fora.

Mak - Pois é. Mas e a pouca higiene faz parte do passado ou a badalhoquice dessa relação entre azeite, vinagre e recargas a martelo continua?
Galheteiro (já um pouco com os azeites) - Ouve lá, mas isso é um mito, construído por essas garrafinhas metrossexuais que tudo fizeram para nos tirar o lugar. É certo que temos vários parceiros e marcas de recarga, mas temos também a nossa tradição e agora a ASAE para garantir que tudo o que se passa é legal. E mais, podia contar-te aqui muita história porca que sei entre essas garrafinhas, ditas "invioláveis", e os donos dos restaurantes, passadas nas traseiras dos mesmos.

Mak - Jovem galheteiro, se eu quisesse novelas oleosas via mais a TVI ou a SIC. E diz-me lá, apesar das dificuldades que passaste, só a servir em casas, surges agora mais moderno e rejuvenescido?
Galheteiro - Sem dúvida, enquanto estivemos a trabalhar em casa e a receber o subsídio de desemprego, coisa que muitos dos nossos empregadores nos disseram ser prática comum, acompanhámos a moda. Lá vamos ao Ikea comprar uns trapinhos a preço acessível ou até, de quando em vez, fazer uma loucura e ir a uma dessas lojas de Design com nome de um gajo italiano de quem nunca ninguém ouviu falar. Estamos modernos sim senhor e vamos dar um novo look a qualquer tasco em Portugal.

Mak – Isso parece-me uma galheteirice das grandes…
Galheteiro – Com essa conversa, vê-se mesmo que deves daquelas garrafinhas modernas de azeite e outra tipo vinagre balsâmico lá em casa. E o galheteiro sou eu…

Mak – Ok, acabou-se o teu tempo de antena, volta lá a servir de encosto para ementa, que é para isso que tu serves.
Galheteiro – Sim, sim, quando quiseres molhar o pãozinho depois vens falar comigo…

Kool&The Gang - Fresh

15.10.08

Ó Brad, andas muito Jolie andas...



Há coisas que me parecem retiradas de um sketch dos Python apesar de me jurarem que fazem parte da vida real. Ao que parece, o casal perfeito Angelina Jolie-Brad Pitt anda a ter aconselhamento conjugal com um especialista na matéria, que deve cobrar mais do que o orçamento de Estado para 2009. Até aí, tudo bem, é natural que lá em casa haja discussões sobre temas tão importantes como quem dá origem a mais fantasias sexuais pelo mundo inteiro ou sobre se a próxima criança adoptada vira do Nepal ou da Suazilândia.

Mas, segundo o que li, a senhora Jolie ironicamente acusa o marido de ser excessivamente feliz e ter, por vezes, uma alegria enervante. Numa época em que o casamento é cada vez mais um hobbie isto parece-me, de facto, um motivo preocupante. Deus livre qualquer casal da felicidade excessiva, que isso é coisa que só fica bem em histórias da Disney. Marido que não anda macambúzio ou anda a esconder alguma coisa à mulher ou descobriu que é gay, já dizia um famoso filósofo que morreu no anonimato.

Afinal de contas, ele já tem 45 anos (sim, é verdade), possivelmente já era hora de começar a ficar amargurado. Além disso, a quem é embaixadora da ONU, da UNICEF, da Cruz Vermelha, do Cangurik e do Clube do meu Pequeno Pónei não convém ter um marido excessivamente feliz, dá ideia de que não se preocupa com a desgraça do mundo e isso não ajuda nada à tarefa.

Por isso tio Brad continue a divertir-se a fazer filmes e na galhofa com o Clooney, mas vamos lá a acalmar ao chegar a casa. É que, embora possivelmente partilhemos a opinião de que a Angelina como actriz não é grande coisa, já percebeu que a gaja dá-lhe bem a fazer filmes lá em casa...

14.10.08

O Síndrome do prisioneiro


Antes de mais, gostaria de dizer que não tenho qualquer formação em psicologia, tirando algumas interessantes cadeiras que tive a oportunidade de visitar durante a faculdade. Aliás, posso até acrescentar que tenho a impressão de que uma boa percentagem das pessoas que tiram cursos de psicologia fazem-no um pouco no âmbito do espírito “Arranje você mesmo”, próprio de quem tem alguns problemas por resolver.

Posta esta introdução, vamos ao que interessa – Há em mim um talento capaz que me equipara ao melhores psicólogos. A um interesse pela natureza humana nas suas facetas mais absurdas, junto uma imaginação mais fértil do que os terrenos da Mesopotâmia dos tempos antigos o que, em conjunto, me permite conjecturar teorias sobre quase tudo.

Daí, foi fácil chegar ao Síndrome do Prisioneiro que, mais do que uma teoria, é um aviso. Ora vejamos, um preso que esteja muito tempo numa cela com um companheiro sujeita-se a isto – Ao início, o companheiro pode parecer-lhe um perfeito anormal que lhe causa repulsa. Ao fim de uns tempos, o prisioneiro começa a dar um desconto ao companheiro “Ele afinal não é tão mau, teve foi uma infância difícil. E aquela tatuagem com um esquelto a violar a Madre Teresa tem a sua piada”.
Conforme o tempo vai passando, o antagonismo vai-se esbatendo, já que a falta de escolha e de tempocondiciona a vida social. Não será difícil que, salvo danos maiores, os defeitos do companheiro, inicialmente um facínora, sejam agora perfeitamente justificáveis e ele tenha agora outro “papel” no nosso coração. Qual? Depende da pena e do desespero...

Transporte-se este cenário para a vida de muita gente à nossa volta. Salvo aqueles que conseguem manter a sua vida social em patamares de alta competição, estamos a maior parte do dia confinados aos mesmo espaços. Com base nisso, temos já terreno para chegar ao Síndrome do prisioneiro. Em escritórios, adegas cooperativas, instituições estatais e não só surgem todos os dias exemplos de uma epidemia deste Síndrome. Nos casos mais graves, gente que se odiava vive agora relações tórridas, nas maleitas mais suaves, é só fruto da falta de tempo.

O que é que eu tenho a ver com isso? Em teoria, enquanto parvo opinativo, tudo. Na prática, mal me comece a sentir afectado e comece a ver qualidades onde antes só via defeitos, a solução é simples – emigro.

13.10.08

A tontura do sono



É preciso ter confiança para, logo a abrir, afirmar que este é um dos posts mais originais de sempre. Aliás, nem precisaria de escrever mais do que isto, para que tal fosse verdade. Especialmente se tivermos em conta que não abundam posts meus publicados às 4 da manhã da madrugada de Domingo para segunda, horário de Portugal Continental e arredores.

Mas ouve lá, clamam vocês que vêem em loop a gravação do Programa da Lucy, tu és anormal ou fazes-te? Um pouco de ambos, posso tranquilizar-vos. Na verdade, de bom grado teria o meu pijama do Noddy vestido e cavalgaria no Vale dos Sonhos num pónei branco, acompanhado por encaloradas miúdas de Leste e pelo Jaime Gama. No entanto, o meu trabalho de ter ideias para salvar o mundo não tem horas, mesmo que a salvação tenha neste caso a forma de um aumento de vendas num determinado produto.

Bela trampa ó choninhas, interrompem de novo vocês, ignorando o facto de que eu só posso considerar as vossas observações depois de publicar o post, tornando infrutífero o vosso esforço. Mas sim, é de facto uma trampa, embora experiências como estas sirvam para provar o quão sobrevalorizado é o sono. Pois se eu consigo estar aqui, já muito perto das cinco da manhã, sem recurso a substâncias ilícitas a debitar palavras com mais de 4 sílabas e graçolas de palmo e meio, então é fácil perceber como é que houve malta a resistir durante muito tempo à tortura do sono.

É certo que no tempo da Inquisição e afins ainda não havia a programação televisiva da madrugada, mas há que não fazer desmerecer o valor.

E agora, vou ali acordar um colega, que adormeceu com a cara no teclado e aquele bip irritante incomoda-me.

Depeche Mode, Waiting for the night
(Atente-se ao luxo que é o novo interface musical)

10.10.08

Atentados logo pela fresquinha

Para além do meu penteado quando acordo, duas coisas me têm intrigado logo pela manhã. Como sei que por aqui não faltam pessoas com pouco que fazer, talvez surja uma explicação minimamente interessante:

Porque raio se acumulam pessoas à porta de estabelecimentos tipo Pingo Doce a mais de vinte minutos do horário de abertura? Será a ânsia de alcançar o primeiro papo-seco? O deslumbramento de sacar a primeira meia dúzia de nectarinas da manhã? Ou há uma máquina de roupa a ressacar por uma dose de amaciador?
Jovens peregrinos madrugadores, aquilo não abre antes das nove, nem que vocês peçam mesmo muito. Por isso, que tal ficar em casa e ver o ritual de acasalamento dos camarões na TV Cabo, só para fazer tempo.

Como é que há malta que ainda consegue combinar as palavras rissol, café e Sumol com pequeno almoço saudável e ainda olhar com desdém para quem olha para elas com ar estupefacto?

9.10.08

Diz-me o que diz aquilo que comes

Nos dias que correm, toda a gente está cada vez mais atenta ao que come. São as preocupações com a saúde, com as condições dos alimentos, os ingredientes utilizados e até com o passado amoroso do que se tem à frente.

Como tal, há uma crescente preocupação em esclarecer o consumidor em relação a essas matérias, para que não haja qualquer razão de suspeita. Isto em teoria, já que na prática algumas empresas preferem aludir ao receituário lírico. Senão vejamos esta imagem:



Comecemos pelo nome do distribuidor – Real Snack. Estamos sem dúvida na presença de algo que só podia vir das mãos dos melhores Chefs. O facto de ser comercializado em reles embalagens de plástico e vendida em máquinas de ocasião mostra apenas o esforço de levar a realeza às bocas dos menos afortunados. O facto da empresa ser sediada na Amadora apenas reforça a sua distinção e cariz premium.

Segue-se uma assinatura a roçar o estrondoso – Produto da imaginação. Esquecendo os 75 cêntimos bem reais que tens que desembolsar para que esta iguaria chegue às tuas mãos, o resto é mesmo imaginação. Fechas os olhos e podes imaginar o sabor delicioso que te inunda as papilas gustativas. Com apenas mais um esforço podes até pensar no bem que te faz este pitéu. Talvez assim te abstraias da bosta que acabaste de engolir.

O nome – “Merendinha” acaba por ser um piscar de olhos ao espírito infantil que uma guloseima destas representa. Isso ou o facto de qualquer coisa acabada em “inha” parecer sempre menos má. Do género "A Peste Negrinha" parece bem menos ameaçadora...

A finalizar, o toque de mestre. Ora então, este manjar leva farinha, água, sal, margarina e.... MELHORANTE DE BRIOCHE. Não é um corante, um conservante, um emulsionante ou até volfrâmio em conserva – é Melhorante e, ainda por cima, de brioche. Difícil seria não acertar neste conhecido ingrediente que tem vindo a melhorar a qualidade dos brioches desde o tempo de Maria Antonieta.

Caros senhores da Real Snack, se querem gozar com a malta não é preciso tanto esforço. Os vossos produtos da trampa chegam perfeitamente.

8.10.08

Justifica-te bem essa atitude



As pessoas, e neste grupo incluo até viram a Gala da Ficção Nacional da TVI, tendem a justificar-se. Isto é um facto da vida e, se eu o digo, ganha um estatuto de facto da vida inegável. Tal facto é até válido para aqueles que dizem “Eu não devo justificações a ninguém” argumento que, por si só é uma justificação.
Seja no corte de cabelo, no facto de não gostarmos de alguém ou em decisões importantes, como a razão de ser adepto do Belenenses há sempre um “porque” que nos leva a sustentar um dado argumento.

Até os que dizem sempre “Porque sim” ou “Porque não” se justificam, embora deixem por explicar porque são essenciallmente gente básica sem argumentos. Com que direito digo eu semelhante alarvidade, clamam alguns? Porque sim seus madraços.

Tudo isto nasce da necessidade de aprovação que os seres humanos, definição usada uma vez mais no sentido lato, gostam de ter da parte das pessoas que os rodeiam, mesmo que sejam apenas os que os rodeiam na paragem do autocarro. Mas, o engraçado deste assunto todo não é censurar quem se justifica, mas sim estimular a justificação idiota. Vocês não imaginam a diversão que é responder a um simples “Bom dia” com “Porque é dizes isso?” ou a um “Como é que foi o fim de semana?” com “Achas necessária essa pergunta de cortesia ou queres mesmo saber?”. Isto é apenas um pequeno exemplo e, como é óbvio, é necessário manter uma cara séria, sem ser desagradável, para que o interlocutor hesite e comece a fazer o chamado “Break dance justificativo”.

É divertido? É. Faz de ti um parvo sem igual? Também. No entanto, garante que as pessoas que depois disso continuem a falar contigo regularmente sejam mesmo teus amigos ou gostem muito de ti. O que às vezes se traduz em começares a falar mais tempo contigo mesmo.

George Harrison, My mind set on you

6.10.08

Mamma Mia, Zé Carlos!

Resolvi dedicar este fim de semana aos desportos radicais, como por exemplo ver a programação nacional de TV ou ir ao cinema. Como grande aventureiro que sou, fiz até uma aposta cuja contrapartida passava por cortar um testículo ou ir ver o “Mamma Mia”. Tendo perdido essa mesma aposta resolvi deixar de ser uma criancinha e sujeitar-me ao castigo mais doloroso – ir ver esse pastiche dos ABBA.

As conclusões são fáceis, é um nítido filme de gaja que todos os gajos que vão ver ou querem provar que são sensíveis à sua companhia feminina ou são efectivamente gays. Não sendo isso, então a única explicação é que são como eu, assim para o parvo.
Mais preocupante do que isso é vermos que, sem grande esforço, sabemos de cor 6 ou 7 músicas dos ABBA, o que não abona a favor de ninguém, especialmente se acompanham com palmas.
A história não vale nada, mas também ninguém vai ver aquilo pela história, mas sim pela hipótese de ridicularizar repetidas vezes o canastrão do Pierce Brosnan. Há no entanto que elogiar a produção, altamente inteligente, não faltando até um elemento gay no elenco para agradar a uma franja representativa da audiência e pedir-lhes desculpa, uma vez mais, por terem de ouvir o ex-007 a cantar e contemplar as nádegas do Stellan Skarsgard. Também apreciei o esforço de tentarem realçar ao máximo a voz da jovem apaixonada com traumas familiares, escondendo-lhe, sempre que possível, os atributos físicos, quando tem ali um corpinho a condizer com a voz. E, que não me venham com puritanismos, porque na mesma cena em que o seu jovem noivo está ali a mostrar que não tem faltado às aulas de abdominais, tem ela um fato de banho do tempo da D.Amélia...

Creio que o final com toda a gente em lantejoulas acaba por funcionar como anestesiante em relação a quem pudesse esboçar um certo protesto, mas não apaga da memória a tradução pertinente da questão que é feita a Meryl Streep por uma amiga "Are you getting any?" para "Tens visto o padeiro?". Ninguém mais do que eu adora uma boa metáfora, mas tenho sérias dúvidas que, em registo moderno alguém possa andar a sacar do padeiro algo mais do que papo-secos e o ocasional brioche.

Para concluir o fim de semana, optei por vergastar-me com um raminho de oliveira, já que na TV passava um concurso de dança (creio que o milésimo da RTP) com a Catarina Furtado 2, vulgo Sílvia Alberto e, na TVI, o Moniz arranjava uma gala para tentar convencer alguns espantalhos de que são efectivamente actores. O acepipe estava guardado para a noite, com o regresso do Gato mas, talvez devido às lesões causadas pela exposição em excesso à televisão não consegui perceber grande diferença do programa da RTP, tanto que até verifiquei no comando. Tinham mesmo mudado para a SIC, eu é que sou de compreensão lenta...

3.10.08

Entrada livre para senhoras, cavalheiros e indecisos



Apesar de não vos cobrar nada à entrada, fiquem sabendo que a clientela deste blog é sujeita a um rigoroso exame. Ainda ontem, em conversa com um amigo imaginário, depois de debatermos se seria mais interessante correr todo nu pelo Jardim do Campo Grande ou electrificar os teclados da malta no trabalho, abordámos a seguinte questão:

Porque será que, tendencialmente, boa parte (para não dizer a maioria) dos visitantes deste blog é mulher ou é oriunda de blogs assim mais para o feminino?

O meu amigo imaginário, claramente machista e portador de um bigode, veio logo com teorias que punham em causa a minha masculinidade, aconselhando-me a aumentar o número de receitas de cozinha e a falar abertamente sobre os meus sentimentos, para gerar mais clientela entre a mulherada.
Enquanto fazia arranjos florais, neguei tudo isso e tentei explicar-lhe a minha teoria sobre o assunto. Felizmente, ele tinha uma festa de aniversário de outro amigo imaginário comum, e fiquei de explicar isso noutra altura, o que me dá mais tempo para lhe mentir com propriedade, já que não tenho teoria nenhuma.

Aí começa a vossa parte, já que da parvoíce em posts trato eu. Sejam anónimos (alcoólicos ou não), sejam o que quiserem. O que eu gostava de saber é – O que vos leva a perder 20 segundos do vosso tempo inútil para vir até cá? Especialmente vocês, caras senhoras, que segundo o meu amigo imaginário deveriam estar a remendar meias e a confeccionar refeições ou, se estão na net, a procurar sites com dicas para melhorar os vossos talentos nesta área.


PS – Garanto resposta personalizada, tanto em comments como em mails, mas não resolvo os vossos problemas em 48horas

War, Why cant we be friends

2.10.08

10 Minutos de 27

Depois de algum tempo em que o meu périplo pelo bus 27 se viu algo reduzido, eis que hoje regressei ao alegre convívio nos transportes públicos. E, como sempre, bastam 10 minutos para aprender coisas que duram uma eternidade.

- Apesar do advento dos gratuitos, a chamada leitura por detrás da orelha ou do ombro continua a ser um must. Sejam livros, jornais ou talões de compras, o voyeurismo tem sempre lugar (obrigadinho Teresa Guilherme).

- Se os telemóveis causam cancro/tumores ainda não está confirmado. Que causam irritação em quem tem que gramar toda uma panóplia de toques merdofonicamente reais e idosos que usam o telemóvel como megafone, disso já não há dúvida.

- O ipod/mp3 já faz parte do ritual matinal da maioria dos utentes de transportes públicos. Incluindo os que não usam, visto que entre gente que conseguia ficar surdo em menos de cinco anos e aqueles que fazem do karaoke e do lipsynching um hobbie é impossível não entrar no ritmo.

- Em tempo outonal mas de calor, o número de gajos que usa óculos de sol por causa do mesmo é inferior ao número de gajos que usa óculos de sol por causa de decotes.

- Os idosos vêem melhor dentro dos autocarros. Isso prova-se pelo facto de descobrir um lugar do outro lado do bus, mesmo que ele esteja cheio e também pelo facto de conseguirem descortinar um símbolo para a 3a idade nos lugares reservados, enquanto tipos como eu só conseguem descortinar grávidas, deficientes e acompanhantes de crianças de colo.

- É raro ver alguém sorrir de manhã. Dado a elevada percentagem de má higiene oral, é um favor que me fazem.


Haveria muito mais para dizer mas, infelizmente, só pus moeda para 10 minutos.

Steely Dan, Peg

30.9.08

Música e actividades amorosas em viaturas

Em dados serões profissionais, não raras vezes me vejo a procurar música de cariz duvidoso para me ajudar na árdua labuta. Ontem, dei por mim viajando por entre os acordes românticos de Amadeu Mota, artista luso que já me tinha supreendido pelo seu hino quase pedófilo “Ela tem apenas 15 anos de idade”.
Desta feita, foi o seu “Amor no Carro” que me levou a reflectir um pouco sobre o sofrimento que ele nos transmite e que, sem dúvida alguma, nos deixa presos numa malha de agonia musical e sentimental.

Mas, oiça-se o tema e comente-se depois.



Então, vejamos o início: um órgão com um ligeiro mood litúrgico mostra-nos que estamos perante um tema respeitoso, mas a guitarrada seguinte diz-nos que lá por haver respeito não deixa de também constar rebeldia neste tema. O tom psicadélico do Casio de feirante que entra em cena serve apenas para provar que estamos perante alguém que toma medicação.

Amadeu começa por nos referir que passou a semana sozinho obcecado por alguém, que esta noite anseia por encontrar. Nota vinte pela motivação e pela garra que certamente terá no encontro, mas também a clara indicação que podemos estar a lidar com um stalker ou, pior ainda, um desempregado com muito pouco que fazer.

Movido pela saudade, Amadeu mostra alguma incongruência gramatical ao referir “Preciso te ver, não me digas que não”. Isto, para além de alguma falta de atenção na tradução do cancioneiro mostra que, quando contrariado, Amadeu pode tornar-se ameaçador, passando de algum distanciamento às exigências no tratamento por tu.

“Paro o meu carro em frente ao teu portão. Ajeito meu cabelo no retro-visor”. Amadeu não se sente à vontade para entrar na casa da sua amada. Pontos negativos para ele. Isto significa que ou tem panca com automóveis ou os pais dela não aprovam o seu penteado, coisa que tenta disfarçar com uma penteadela de última hora, enquanto que reflecte sobre a necessidade de quebrar a palavra retrovisor para não estragar a rima.

A rima seguinte é um claro indício de que Amadeu não tem telemóvel, já que ainda recorre à buzina para chamar a sua miúda. Pontos contra na modernidade, que podem ser rebatidos se tiver uma buzina com um toque rítmico peculiar. A insistência em ver a sua moçoila para lhe entregar o seu coração poderá indicar que estamos perante um dador de órgãos. O outro órgão, o psicadélico, continua a indicar que a medicação está em falta.
Começa o ritual amoroso. Vencendo o enjôo do perfume excessivo da sua amada, Amadeu tem tempo para fazer considerações sobre a Lua antes de mostrar mais uma faceta perturbante ao referir o efeito da Lua “iluminando nós TRÊS”. O nosso artista tem de facto um grande apreço pela sua viatura ou então, esqueceu-se de deixar um amigo em casa antes de ir ter com a miúda. A opção regabofe a três parece não encaixar com o carácter respeitoso da música.

Já não é segredo quando Amadeu nos revela o que se passa no seu veículo “Amor no carro” grita ele a plenos pulmões, acrescentando “Carinho que não é pecado”. Aí, a doutrina divide-se, já que o facto deste jovem estar envolvido em grande Tetris humano dentro do seu carro, mesmo em frente aos portões de casa da moça não parece ser daqueles actos com a chancela de aprovação do Vaticano.Isto para não mencionar que Amadeu nunca nos fala em casamento, nem há indícios que não tenha andado a dar duas buzinadelas pela rua inteira.

No entanto, o verso seguinte tira algum brilhantismo à fogosidade que acreditamos estar a testar as suspensões da viatura. No meio do pagode, Amadeu indica que alguém se diverte a escrever o nome da moça no vidro embaciado. Se for ela, é mau sinal para o jovem garboso, já que pode denotar alguma falta de engenho nas artes do amor da parte deste. Já se for Amadeu o escritor de janelas, isto pode aludir a um estratagema para se certificar que não se engana no nome da moça...

O solo de guitarra a seguir leva-nos para ambientes idílicos, talvez para nos distrair da javardice que se deve seguir ao referido “Amor no carro”. Mas, para quem tenha dúvidas sobre o que se tenha passado, Amadeu faz um reprise na segunda parte da música, começando logo na parte do portão, focando-se assim no essencial.

A verdade é que, depois de ouvir Amadeu Mota, invade-nos uma sensação de tranquilidade. É bom saber que há por aí gente com estofo para amar em qualquer lugar. Mesmo que seja estofo manchado por música duvidosa e não só...