6.10.12

A crise também chega à piscina



No meio do circo em que se tem tornado a realidade em que vivemos em Portugal, o direito à queixa tem vindo ao de cima. Em boa parte dos casos, pessoas que lidam com realidades difíceis ou expectativas cada vez mais baixas queixam-se com razão. No entanto, em ambiente de crise, também não são poucos os que se queixam aproveitando a maré, sem que tenham uma microscópica ideia do que são realmente dificuldades.

E se não me faz confusão nenhuma que, entre amigos, cada um se queixe do que entender, baralha-me o sistema ver, num grupo reunido de gente com capacidade financeira muito diferente, a falta de noção de quem se iludiu com o conceito “classe média alta” e tem agora que fazer muito sapateado para liquidar despesas, mas se quer bater ao mesmo nível de quem todos os meses tem de fazer mestrados em engenharia financeira para garantir o básico da qualidade de vida.

Portanto, enquanto uns diziam que agora almoçam 90% trazendo marmita de casa, que ponderam abdicar de TV por cabo e tudo o que é superficial e se se for preciso vendem o carro para não cortar no berçário da filha, outros reclamam do preço dos colégios de luxo em que têm os filhos, que já não podem ir ao estrangeiro, que estão fartos de passar as férias no Algarve e que têm dois carros na garagem, mas já só andam com o terceiro que é mais económico.

Quando o primeiro cenário, se bem que preventivo, ainda não é dramático, ver o ar choramingão com que este último grupo se queixa faz-me pensar se não seria possível fazer daquelas trocas como há em certos reality shows e mandar estes tipos seis meses a viver para a franja cada vez maior de malta que está para além do limiar da pobreza.

Da minha parte, sem deixar de reinvindicar os meus direitos, tento evitar as queixas mesquinhas e o choradinho. Sei bem que por cada pessoa que está melhor que eu é provável que três ou mais estejam em pior situação. Por isso, tento fazer uma nota de equilíbrio à minha contestação, respeitando a situação de quem me rodeia.

Contudo, há sempre quem não resista a reclamar que o preço do cloro para a piscina está cada vez mais insuportável...

17 comentários:

  1. Adorei o post, como é habitual. Eu, tal como escrevi no meu blog, tenho consciência que há muito mais gente em pior situação e que eu ainda vou tendo emprego para poder pagar as minhas contas. E sim, sempre que posso levo comida de casa e vou de transportes públicos. Eu tive de cortar no ginásio. É um bem superficial.
    Agora, essa gente mete-me nojo, quando diz, por exemplo, como eu ouvi há tempos, que iria ter de passar a cortar nas aulas de equitação e que em vez do mercedes x, vai comprar o mercedes y porque sempre é mais barato.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Em relação a escolhas de carros em tempos de crise, refiro apenas a ironia que um amigo meu me apontou e que tem a ver com o facto de veres BMW's, Mercedes e afins a perder horas nas filas para pôr gasosa no Jumbo.

      Eliminar
  2. O cloro subiu outra vez?

    Meio a brincar, meio a sério, li este post e revejo-me nele, mas suscitou-me uma questão.

    Compreendo perfeitamente que não devo, nem posso, comparar as adversidades com aqueles que não têm dinheiro para pôr comida na mesa.

    Mas as minhas ambições, os meus sonhos, tudo o conceito de vida que desde muito cedo desenhei, não têm valor? O limite está na comida na mesa?

    É que se for isso, convém lembrar que a fome, necessidades, dificuldade de acesso à saúde, sempre esteve aí, por esse Portugal fora, talvez mais interior, que litoral. Parece é que agora que a classe média média se lixou e a coisa deixou de ser na televisão, normalmente notícia do último terço do telejornal (tipo, este casal, vive com os seus 3 filhos...), começou a doer.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas obviamente que por cá a coisa só "começou a doer" quando chegou aos grandes centros, fruto da generalização dos cortes e aumento das dificuldades. Até lá eram coisas de um Portugal diferente, dos desgraçadinhos dos telejornais.

      Quanto a sonhos e ambições, sim, também contribuem para as frustrações quando vemos que pode ser cada vez mais complicado realizar o que quer que seja.

      A escala de desilusão das pessoas é inerente ao que cada um quer para si e todos têm direito a sonhar ou a sentir que os seus sonhos são defraudados.

      No entanto, o que eu refiro é que ainda existe em muitos casos uma falta de noção, respeito, solidariedade social, seja o que for, entre gente que está num patamar social/financeiro mais elevado e quem está mais abaixo a fazer pela vidinha, sem se queixar metade das vezes...

      Eliminar
  3. Infelizmente esta gente (ambas as classes) não têm a noção de que existe sempre alguém muito pior. Acham que tudo lhes é devido e que é indecente alguém lhes tirar alguma coisa que seja para depois ficarem melhor... Enfim cada um tem o QI que tem...

    DESBOCADO!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Acho que nem passa tanto pelo QI, tem a ver com experiência de vida, noção de realidades diferentes. É certo que da classe A a Z toda a gente pode sofrer numa crise com a amplitude da nossa.

      Cabe ao bom senso saber depois como cada um se pode manifestar em relação a isso.

      Eliminar
  4. Não concordo contigo. Aqueles que estão habituados a viver acima da média, porque ganhavam acima da média, e vão poder de o fazer, também têm razões para se queixar. O facto de haver quem esteja pior não retira essas razões nem pode servir de consolo (há sempre alguém pior, até para quem já está mal).
    No limite, podes dizer que devem evitar queixar-se na frente dos outros.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mas é isso que eu digo, toda a gente tem direito a queixar-se e toda a gente pode sofrer com efeitos da crise.

      É quando estás perante pessoas com situações bem piores que a tua é que deves aprender a relativizar, nesses momentos, as coisas e não estar a querer comparar desgraças, coisa que só por si já é deprimente.

      Como referi, não é a queixa em si que me choca ou que perde legitimidade, é estar a tentar equiparar situações que, muitas das vezes não têm qualquer base de comparação.

      Eliminar
    2. Está bem. Tresli-te um bocado.
      Mas a subida dos preços do cloro é uma chatice.

      Eliminar
  5. Vivo acima da média da maioria dos portugueses mas à custa do meu trabalho e do meu marido,eu desde os 23 anos (e como trabalhei nesses 1ºs anos)e ele desde os 18.Trabalho honesto, nunca exploramos ninguém, antes pelo contrário, ajudamos muitas pessoas, sempre pagamos religiosamente os nossos impostos( e não são poucos)não devemos nada a ninguém, quer dizer não temos culpa nenhuma que o país esteja como está e de repente ROUBAM-NOS 2/3 do salário. Se me perguntam se posso continuar a passar férias, posso. Se posso trocar de carro ou continuar a fazer a vida que fazia( também não sou muito gastadora), posso.Isto não quero dizer que não me sinta revoltada, roubada,indignada.A diferença é que muitos não têm que comer ou não podem por os filhos a estudar, mas isso sempre houve e ninguém se preocupou, só agora quando também lhe foram ao bolso.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nada a opôr em relação a essa indignação e ao facto de evidentemente também fazer todo o sentido encontrar pessoas com algumas possibilidades que têm a noção do que é não ter ou, pelo menos, pôr-se na pele dos outros.

      Não digo que, por haver gente em pior situação, isso invalide o nosso direito à queixa, digo é que numa sociedade de desigualdades, respeitar os que têm menos também passa por saber quando e como nos queixarmos.

      Numa manif todos se juntam por uma queixa, protesto contra algo comum e transversal, sem haver diferenças (ou não devendo haver).

      Em grupos pequenos, situações informais, reuniões de amigos, colegas, etc, cada um está a vender o seu caso. E aí entra o discernimento...

      Eliminar
    2. Maria da Luz07/10/12, 23:30

      Quando começaram a baixar os ordenados da função pública, desde o fim de 2010 e têm vindo sempre a baixar com corte nos subsídios, "os outros" estavam muito caladinhos e nunca se importaram que houvesse ordenados da FP vergonhosos. Sabe por acaso quanto ganha uma enfª especialista? Pouco mais que a minha empregada que só trabalha 5h/dia.Logo de início todos se deviam ter unido como agora que talvez a situação tivesse sido outra.

      Eliminar
    3. vivemos numa país, diria mais até, vivemos numa era em que muita gente só se preocupa com o estado geral das coisas quando o mal lhe bate à porta.

      Isso está longe de ser positivo obviamente e o Estado é, muitas vezes, o pior patrão, mas sem qualquer menosprezo pela situação porque passam várias pessoas de valor na função pública, o problema é que a mesma também está minada na sua estrutura e se criaram dependências do Estado que nunca deveriam existir, para um melhor equilíbrio dessa mesma estrutura.

      Eliminar
  6. Acho que percebi ao que te referias - falta de pudor?

    Acontece que eu tenho uma ideia da sociedade, o que é diferente de "de sociedade", em que realmente ninguém quer saber do que acontece à volta.

    Às vezes tenho mesmo a certeza que há quem seja efetivamente incapaz de ver as outras pessoas, literalmente ver. Qualquer palerma, em qualquer restaurante (de luxo ou não), consegue tratar o empregado como se não existisse. Por isso é evidente que a malta só gritou quando lhe doeu. Faz parte da coisa... É um grande formigueiro.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Educação e consciência são factores muito, mas muito variáveis...

      Eliminar
  7. Eu também ando muito aborrecida com esta crise e com o aumento desenfreado de impostos, também tive de cortar, este ano não comprei Pêra Manca na feira dos vinhos, lá vou passar a ter de beber Tapada de Coelheiros, Esporão e Cartuxa, estavam com 20% este fim de semana, aliás depois da fortuna que acabei de gastar não sei se não terei também de cortar no ginásio, uma maçada, a minha vida é isto.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se for uma vida de vinho e ginásio, não se esqueça que o álcool desidrata antes de qualquer exercício...

      Eliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.